O Luxo de viver bem – ter ou ser?

Alvaro Guillermo.

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Atualmente, a ideia de luxo está associada também aquilo que nos é raro e, portanto, caro – não necessariamente à riqueza material e financeira, mas aquilo a que de fato damos valor. Tem muito a ver com desejos e necessidades. Para muitos, por exemplo, ter um iate não é um desejo, ou porque já o têm, ou porque nunca o conseguirão, ou talvez porque não gostem de mar. No entanto, entendemos que ter um iate, ou passear de iate, é um luxo. Isso ocorre porque o luxo não está necessariamente no objeto material “iate”, mas na possibilidade de viver essa experiência rara, diferente do cotidiano, que é “passear no mar, de iate”. O valor aqui está em viver de forma diferente, de aproveitar melhor a vida, e o signo que representa isso é o iate. Assim, associamos o iate ao luxo. Diante desse conceito, viver bem, com paz e qualidade de vida numa grande cidade caótica e frenética é um desejo e também uma necessidade a que muitos passam a dar bastante valor. Nesse sentido, poucos têm o luxo de viver assim.

“A inserção de nossas identidades em nossos ambientes é importante para o reconhecimento do que somos e do que queremos ser, e não do que temos ou queremos ter.”

Por isso, a casa passa a ter importância fundamental, pois é nela que podemos imprimir nosso conceito de vida, e é no ambiente de nosso morar que conseguimos sentir a importância de viver bem, quando esse pouco tempo que temos para nós mesmos passa a ter valor especial.

A inserção de nossas identidades em nossos ambientes é importante para o reconhecimento do que somos e do que queremos ser, e não do que temos ou queremos ter, ou seja, passamos a entender o prazer de viver em ambientes com que nos identificamos e, quando atingimos isso, sentimos isso como luxo – devido ao valor que lhe damos.

O investimento nos ambientes de nossa casa é fundamental para viver melhor; a escolha de produtos adequados é mais que uma necessidade. Poder chegar em casa e sentar numa boa poltrona, ou assistir a filmes com qualidade, ou preparar aquela gastronomia com os amigos num espaço gourmet é um luxo.

É assim que este conceito se estende à casa de praia e ou de campo, que não são pensadas como um investimento financeiro, mas como um luxo necessário para preservar a qualidade de vida: são a oportunidade de viver melhor.

Dessa forma, entendemos que a decoração de nossos ambientes passa a ter uma relação forte com nossas identidades, com o nosso tempo devida e com o luxo. Como se trata de identidade, isso reforça a ideia de indivíduo. A avaliação desse indivíduo passa muito mais pela sua experiência de vida, permitindo, assim, que o tempo passe a integrar essa cadeia, seja pela marcação simbólica da experiência, seja pela real percepção do mesmo.

É uma situação de difícil avaliação. O valor do tempo nas nossas vidas é um conceito abstrato que domina nossas conversas do dia a dia. O tempo tornou-se raro, e a percepção de que este tempo foi vivido com a intensidade requerida é mais rara ainda. Assim, ter noção de nosso tempo de vida é um luxo. Poder fazer as coisas que queremos e desejamos no nosso tempo, ou usar o dia da forma que mais nos dá prazer, é um luxo mais raro.

Este afasta-se da riqueza material de posse (ter), mas nos aproxima de valores associados à qualidade e vivência individual (ser), ou seja, discutir luxo não se trata necessariamente de entender seu conceito, e sim a noção individual que temos dele.

Por isso, nos aproxima do morar, da nossa casa, do nosso habitar. É nele que temos a maior possibilidade de perceber o tempo de nossas vidas e associá-lo a uma vida de luxo. Isso nos traz mais próximos da experiência de vida, muito mais próximos do resultado para o indivíduo do que a representação deste para o social. Permite-nos entender o que somos e o que queremos ser. Uma reflexão que é um luxo.

Por Alvaro Guillermo.